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Categoria: Lutas da classe trabalhadora

Notícias desde Bolívia - 20/06/2026 COB e governo Paz assinam Acordo

Notícias desde Bolívia - 20/06/2026

COB e governo Paz assinam Acordo

Por Manuel Iraola, jornalista e dirigente da RS/LIS

A conjuntura se tornou cada vez mais confusa nas últimas duas semanas, com declarações e notícias contraditórias, particularmente quando a COB (Central Operária Boliviana) e outros setores começaram a falar em negociações. Frente à incerteza da classe trabalhadora, camponeses e setores populares, as lutas começaram a arrefecer. Mesmo assim, ontem se cumpriram 50 dias de greve geral e 45 dias de bloqueios, embora alguns mais debilitados e parciais.

O governo de Rodrigues Paz esteve semiparalisado em todo esse período, não conseguiu aplicar nenhuma medida repressiva contundente, quando fizeram um ensaio em San Julian, cidade de 45 mil habitantes do interior de Santa Cruz, a polícia foi derrotada e escapou, momento em que os camponeses destruíram e queimaram o posto policial. É evidente que, no país de conjunto há um poder paralelo nas avenidas, estradas, fábricas e parte dos serviços públicos.

A política da direita tradicional e da ultradireita é a de exigir ao governo a militarização do país, porque essa burguesia centrada na região de Santa Cruz, mesmo contando com grupos paramilitares, não conseguiu atuar de forma contundente.

A burguesia de conjunto não encontrava saída porque a consigna fundamental do povo era a renúncia do presidente, portanto, o medo da burguesia era que uma repressão indiscriminada poderia provocar o início de uma guerra civil. Ou seja, o governo não faz o que quer, faz o que pode.

A COB que, pressionada pelas bases, estava cumprindo um papel preponderante e representando o conjunto da classe trabalhadora e seus aliados, começou a recuar e trocar de objetivo. Assembleias multitudinárias, chamadas de Cabildos Abertos, votaram pelo “Fora Rodrigo Paz” e não negociar com o governo. A Central se negou a aceitar o que setores de esquerda de milhares de ativistas da base pediam, que a COB assumisse o governo, que tomasse o poder político do país em suas mãos.

Os camponeses, especialmente de Tupac Katari assinaram um “Pacto de Não Traição” com a COB, para ir até o fim, hoje eles estão indignados porque a direção da Central descumpriu o pacto e por isso não estão participando das negociações. Na primeira tentativa de negociação dirigentes da COB foram apedrejados.

Uma parte da população como camelôs, artesãos, trabalhadores do transporte urbano e do comercio querem que a situação se normalize porque sem movimentação não tem sustento.

A falta de produtos e de insumos é uma coisa poucas vezes vista, os postos de combustível enfrentam filas literalmente quilométricas, faltam carnes, legumes, remédios, até o menu dos restaurantes foi reduzido, muitos comércios estão fechados e o aumento dos preços duplicou ou triplicou.

Sabemos também que dirigentes de diversos setores começaram a negociar em separado debilitando a luta geral, inclusive os dirigentes das principais minas estatais, de Colquiri e Huanuni, vanguarda da classe operária desde a década de 1950.

No dia 18, depois de idas e vindas iniciaram-se as negociações entre governo e grevistas. Segundo a imprensa participaram uma centena de dirigentes da COB, da FEJUVE (populares de El Alto) e outras organizações. A reunião foi suspensa e ficou num impasse. No dia 19, houve acusações públicas do governo, de deputados, partidos políticos contra os manifestantes, e mais exigências de dirigentes mineiros e camponeses. Ficou um impasse, não havia reunião agendada, mas no dia 20 a negociação continuo no fim da tarde.

Finalmente se fechou um “Acordo” e uma espécie de negociação permanente. As declarações são muito genéricas e sem apresentar, até o momento, documentos escritos. A mais firme declaração é a do governo e seus ministros, de que liberaria as rodovias em até 48h. De fato, as tropas do exército e da polícia estão se instalando nas principais estradas do país onde circulam as mercadorias, incluído em El Alto e, com mais lentidão, nos bloqueios dos camponeses. O governo estaria “revisando” os processos dos sindicalistas presos e acusados, mas não prometeu liberdade a todos, declarou que a militarização das estradas não seria para reprimir e somente para liberar as estradas, aparentemente apostando em convencer e intimidar aproveitando o recuou da COB.

A Central por sua parte pediu o fim das manifestações, disse que o governo cumprirá um acordo que tem 29 pontos dentre eles a “promessa” de não privatizar. Não falou de quais reivindicações seriam cumpridas nem sobre os dias parados dos grevistas. Já o Tupac Katari declarou que manteriam os 47 bloqueios nas rodovias.

Na tarde de hoje, jornais anunciam que: “A poucas horas da aplicação da Medida de Exceção, Cochabamba, La Paz e El Alto mostram primeiros sinais de recuperação.” O ministro de Defensa, Ernesto Justiniano, afirmou que “será gradual e pelo prazo de 90 dias. No existe toque de recolher”.

Ao nosso ver, parece iniciar-se uma “normalização” da situação que atingirá de forma desigual nas distintas cidades e setores sociais. A curto prazo será desvendado quais são as tais promessas do governo e se as cumprirá. A indignação popular poderá trazer a curto prazo, novas lutas contra o governo. Por outro lado, a frustração com os dirigentes que traíram a luta poderá gerar um novo processo de aglutinação de lideranças classistas e antiburocráticas que busquem novos caminhos para se reorganizar.

Em síntese, podemos dizer que neste fantástico levante revolucionário a direção do movimento desperdiçou, mais uma vez, uma oportunidade dessas que se dão a cada 10 ou 20 anos, que estando às portas da Casa de Governo, com um poder operário e popular disposto a tudo, inclusive a tomar o poder, recue para pactuar. Negou-se a assumir o poder pela ação direta das massas e prefere os mecanismos das eleições burguesas dominadas pelos ricos e poderosos.

A desmobilização por parte da cúpula da COB encabeçada por Mario Argollo, foi trágica para os lutadores e grevistas. Mesmo em se tratando só de um movimento reivindicativo, a maior traição dessa direção não é somente a de recuar e sim a de não consultar as bases, e a de se render, em nome da classe trabalhadora, à conciliação de classes, de se subordinar ao próprio governo de Paz. Argollo usou frases impensáveis no mês passado, tais como: “pacificar o país” … “estamos fazendo isto para que não se derrame sangue” … “participemos do diálogo, no permitamos que nosso país sofra mais” ... “não fiquemos como o vilão do filme”. E respondeu às críticas do povo: “Eu não sou um traidor, devemos cuidar das bases” ...

O último capítulo desta longa batalha será definido pela luta de classes, pela disposição deste incansável povo boliviano para continuar a luta por suas reivindicações.

Continuamos declarando e demostrando, inclusive aqui na Bolívia, o nosso apoio incondicional à classe trabalhadora boliviana, a sua luta para gestar uma nova direção para a COB, derrubar todos os dirigentes sindicais, camponeses ou populares que abandonaram ou traíram abertamente este processo revolucionário e construir uma nova direção sindical e política à altura deste povo aguerrido.

  • Pelo fim do Estado de Exceção, da repressão e da ocupação militar!
  • Liberdade imediata de todos/as os lutadores/as detidos/as!
  • Por um Cabildo Aberto para definir os passos a seguir após o absurdo Acordo
  • Cobrar da cúpula da COB a falta de consulta às bases e pelo não cumprimento do “Pacto de Não Traição”

Assina: Delegação brasileira composta por companheiros da RS (Revolução Socialista), integrante da LIS (Liga Internacional Socialista) e da Unidos pra Lutar, integrada por dirigentes do Sindicato do Químicos de SJC/SP.

Nota: As informações apresentadas foram colhidas diretamente nos piquetes de El Alto, em manifestações em La Paz, em conversa com dezenas de moradores, com ativistas e militantes, e de notícias da imprensa local.


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